Itaperuna, nunca mais será a mesma!


Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar
Nas Manhãs de Setembro
Nas Manhãs de Setembro
Nas Manhãs de Setembro

(Vanusa e Mário Campanha)

As manhãs de Itaperuna nunca mais serão as mesmas depois de setembro. Sabem por quê? O Exército brasileiro anunciou ontem que a cidade será invadida. Ironia? Não. Realidade. Esta é a sensação da população interiorana acostumada com a tranqüilidade e calmaria de Itaperuna, neste preciso momento.

Acostumados a ver a banda passar, falando coisas de amor e a rezar os seus terços com o intuito de chegar ao céu, seria demais pedir que aceitassem numa boa, a invasão de privacidade que acontecerá neste mês.

Todos já se acostumaram a observar, comentar, ultrapassar e seguir em frente. Poucos já pararam para pensar o que deve se passar na mente de um indivíduo como este?

Itaperuna nunca mais será a mesma. Há de se repetir a velha frase do técnico de futebol Zagalo: “Vocês terão que nos engolir!”; ou simplesmente pedir licença para assumir a nossa verdadeira identidade.

Já ouviu-se de tudo, já tentaram proibir, já discutiu-se até os preceitos religiosos, já sentiram-se ofendidos com tanta libertinagem, já pediram a Deus que faça cair raios e trovões, mas todas as ações foram negadas.

Itaperuna, nunca mais será a mesma. Talvez pelo impacto que causará sediar um evento deste porte, talvez pelo medo da ação, que com certeza seguirá de uma reação, ou talvez pela falta de opção.

Já acomodada com a manifestação singela e individual diária pelo calçadão, a população ainda não acredita que esta invasão acontecerá. Todos temem, todos sentem, todos opinam, todos criticam, poucos…assumem.

Outro dia, passando em frente a uma lanchonete, eis que ouço das cordas vocais de um “cidadão” as onomatopéias: “bichinha”, “veadinho”, “boiola”, “aí fulano, leva para você”, digo onomatopéias porque estes sentimentos saem da boca como uns grunhidos, sons que muitas das vezes chegam, se acomodam e revoltam… ah se revoltam. Na minha consciência veio logo a indagação de: “Será que ele gostaria de ser tratado desta forma?”

Para alguns, a situação pareceu cômica, e até seria, se não fosse inútil, mas esses foram alguns dos adjetivos que aquele determinado rapaz direcionou a um homossexual que passava com suas amigas, sorrindo, brincando e sem se quer olhar para o “abençoado”.

O agressor não se contendo, repete as expressões por várias vezes e aumentando pernosticamente o seu acervo vacabulístico de adjetivos ao indivíduo, que com muita prudência ignorou a infelicidade das palavras ditas pelo outro, e seguiu seu caminho, como se nada tivesse acontecido. Como já dizia o velho ditado: “falar é prata, calar é ouro”. E foi assim que o jovem contornou a situação e seguiu o seu caminho, sabe Deus em que situações emocionais.

Que espécie de prazer tem um ser humano em humilhar o outro publicamente sem conhecê-lo e sem sequer ter o direito de fazê-lo? Fico ainda mais espantado com a pacificidade das pessoas diante desse tipo de situação. É completamente normal. Agora vejam a contradição. Quando este grupo de seres humanos homossexuais se unem para demonstrar quem verdadeiramente são e a que vieram, é um escândalo, um pecado mortal, algo abominável e mais do que isso, coisa do satanás. (Af! Ninguém merece).

Quase tudo já aconteceu… Brincadeirinhas no ambiente de trabalho, os próprios homossexuais locais pensando no contra, pessoas desejando que dê errado, outros já se preparando para presenciar os que “sairão do armário”, outros dizendo que não querem misturar as coisas, enfim, tudo o que já era esperado veio às vias de fato.

É interessante analisarmos que quanto mais a sociedade se expande, quanto mais globalizada e evoluída tecnologicamente, menos consideração se tem com o SER HUMANO. Por mais que tenhamos um desenvolvimento social relevante, sempre teremos vestígios de discriminação e preconceito com as chamadas “minorias sociais”. Minorias estas que fazem parte de uma maioria sustentadora desta sociedade. Seres humanos, onde estarão?

Somos resultado da mistura de várias culturas, respaldadas sob uma ideologia social que julga as pessoas não pelo que elas são, mas, como são e quanto têm. As chamadas minorias sociais são consideradas marginais, como se nunca tivessem contribuído para reconstrução da história cultural, social e política do nosso país. Milhares de profissionais são dispensados por aparência, sem sequer terem o direito de demonstrar sua competência e suas habilidades, principalmente quando esses profissionais são negros e homossexuais. E tudo isso para quê? As pessoas fecham os olhos para a verdade que está estampada na face de todos, quando se dizem os donos dela, como o rapaz que achincalhou o outro com adjetivos que ele mesmo não gostaria de ouvir.

Como diz João Silvério Trevisan: “aceitar-se é a maior forma de amor próprio, sem o qual ninguém sobrevive. Amar-se: não nos envergonharmos daquilo que somos ainda que não nos agrade”. Quando o autor diz aceitar-se, implica respectivamente em aceitar e respeitar o outro. Cadê os valores, os princípios éticos e morais que foram proclamados na Constituição, e visam o respeito ao ser humano independente de sexo, raça ou religião?

Meus caros leitores, por que temos de aceitar o desrespeito à individualidade do outro, por que criticá-lo sem conhecê-lo. E para quê, se sabemos que um belo dia se morre?

Enfim, é preciso criar vínculos de respeito à diversidade quando se educa os nossos jovens para a vida. É importantíssimo formar-se através de hábitos considerados como tradicionais, uma pessoa com respeito, com uma integridade humanística e sensível, que além de conhecer e respeitar as suas diferenças enquanto ser humano participante de uma sociedade; reconhece e respeita as diferenças do outro. Existem casos tenebrosos de jovens homossexuais que se reprimem por não terem a possibilidade de dialogar, talvez pela dificuldade que a família tem de entender a opção sexual do filho, ou até mesmo pelos parâmetros moralistas que impedem os seres humanos de esperarem que seu filho seja gay. É um momento de ruptura, com certeza. Pois todo sonho vivido pelos pais de terem um filho “homem” que irá jogar futebol com o pai, apalpar os escrotos e assoviar quando uma menina estiver passando, ou aquela velha opinião formada sobre que menina tem que gostar de bonecas e brincar de casinha, se esvai por água abaixo. Há uma situação dialógica no sentido de que os pais ficam em dois âmbitos: o de agirem como seres convencionais e machistas, ou como pais que realmente se preocupam com os filhos e com esse momento vivido por eles, que com certeza não é um momento fácil. É preciso sim, abrir um canal de discussão em torno disso, até mesmo pela família ser a base estrutural da vida de qualquer ser humano.

Aceitar um filho ou uma filha com orientação sexual gay, não é realmente algo fácil para o pai que sempre esperou por um filho nos padrões ditos normais, no entanto, é necessário viver esse momento com sabedoria e saber respeitar a individualidade de cada um, pois estes também não pediram para ter a família que tem.

Ter a oportunidade de dialogar é importantíssimo nessa situação, para ambos. Assumir-se como tu és, é imprescindível, pois só assim terás libertação. Não há coisa melhor no mundo do que você SER quem realmente É, perante a qualquer indivíduo, pois esse ato sublime significa você ter a oportunidade de viver e não ter a vergonha de ser feliz.

A partir de setembro, Itaperuna amanhecerá todos os dias em forma de arco-íris. Pelo menos esta é a intenção dos organizadores da 1ª Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) do Noroeste Fluminense. Um marco histórico na questão sócio-politico-cultural-econômico do interior do estado do Rio de Janeiro. Passo importante para que as pessoas comecem a enxergar os LGBT como seres normais, que trabalham, consumem, politizam, sofrem, se alegram e principalmente, são seres emocionais como qualquer outra pessoa. Mais do que uma manifestação festiva e extravagante, o evento é um ato político e educacional. Nem todos estão ali, somente para “dar pinta”, beijar na boca e dizer que é gay, muito pelo contrário, a maioria dos participantes são pessoas que querem poder andar com suas mães sem correr o risco de ser ovacionado com palavras que ferem os seus sentimentos, são seres humanos que querem andar nas ruas sem ter a preocupação de ser espancado, indivíduos que querem ver as pessoas não sorrindo deles, ou sorrindo para eles, mas sim; sorrindo com eles.

A partir de 21 de setembro, Itaperuna poderá não ser mais a mesma. Difícil? Sim. Mas não impossível, pois como diria Elisa Lucinda: “Sabemos que não dá para mudar o começo. Mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final!”!

Artigo publicado na Revista Estilo Off de Itaperuna – Edição de Setembro/2008

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